PELADOS NO RIO

“Quando a água baixar é que vamos saber quem está nadando pelado”. Esta fase de efeito, atribuída (sem comprovação) ao mega-investidor Warren Buffet, é uma metáfora que explica a realidade de que, quando o mercado está em indo bem (maré alta), todos parecem bem-sucedidos. Porém, a verdade aparece quando a água baixa: a fragilidade do sistema e dos riscos que nos rondam e não estamos conseguindo enxergar, porque estão abaixo do nível da água.

Ouvindo os memos do maior investidor de crédito privado de risco, e grande amigo do Buffet, o Howard Marks, concordo com ele que, parece que ninguém sabe (de novo) o que vai acontecer e mais ainda, ignoram todas as leis da economia (1). O fato é que o mundo nunca foi tão rico quanto no pós-pandemia. Basta abrir qualquer gráfico ou simplesmente olhar a sua volta.

Inacreditavelmente, depois das pessoas ficarem mais de 18 meses trancadas em casa, os mercados não só se recuperaram, como estão nas máximas históricas. Mesmo com tarifaço do presidente dos EUA que não estava em nenhum script.

Alavancagem Oculta e Pontos Cegos no Mercado Atual

O que justifica o expressivo dinamismo observado nos mercados após a pandemia? Com base na análise de tendências e literatura recente, constata-se que raramente há um único fator determinante; geralmente, uma combinação de elementos simultaneamente ativados pode provocar desde a queda de um avião até oscilações significativas no mercado financeiro.

Este artigo abordará especificamente um desses fatores, cuja relevância foi acentuada no período pós-pandemia. Observa-se que a economia global opera atualmente sob elevados níveis de alavancagem — isto é, o crescimento não se fundamenta necessariamente em aumento real da riqueza, mas sobretudo em expectativas otimistas de rentabilidade futura e promessas de pagamento.

De acordo com Banco central Europeu, e de forma aqui resumida(2), as instituições financeiras não bancárias (IFNBs) já superam metade dos ativos do setor financeiro na zona do euro, englobando desde seguradoras e fundos de pensão até fundos de hedge e private equity. Essas entidades assumiram funções antes exclusivas dos bancos, especialmente no crédito corporativo, gerando uma crescente interdependência entre bancos e IFNBs que aumentam o risco sistêmico devido à alta alavancagem, pouca liquidez e regulação limitada ou mais flexível. Os choques podem ser facilmente transmitidos entre setores, como evidenciado pelo caso Archegos em 2021 e a crise dos títulos do Reino Unido em 2022.

Exemplo de como esta alavancagem se materializa são os Leverage Buyouts (LBOs (3), operações em que investidores adquirem grandes empresas combinando capital próprio e dívida, utilizando os ativos comprados como garantia mas que elevam a exposição ao risco. Esses fatores reforçam a necessidade de monitoramento rigoroso do setor.

Explicando em um exemplo ilustrado:


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parte do artigo CFI sobre LBOs. Link nas notas complementares


Observar o passado e os eventos atuais pode nos blindar de surpresas desagradáveis. A alavancagem global, conforme mencionado no início deste artigo, não é o único fator para um potencial risco sistêmico. Os 2 exemplos abaixo podem tornar mais tangível o cenário atual:

Exemplo 1: O Mercado Imobiliário e as Taxas de Juros

Em 2014, meus pais compraram um apartamento que ficou dois anos à venda e, mesmo assim, 40% das unidades do prédio ainda estavam disponíveis durante uma recessão. Na época, a Selic estava em 14,25% e o mercado de ações em baixa. Hoje, apesar da Selic ter alcançado 15%, o setor imobiliário segue aquecido. A História rima, nunca se repete da mesma forma.

Exemplo 2: Movimentações de Investidores Icônicos

Antes de se aposentar, Warren Buffett vendeu grande parte de seus ativos (4) e parou de fazer novas compras, mesmo após o chamado “Dia da Libertação” em abril de 2025. Michael Burry, o famoso investidor que previu a crise do subprime americano de 2008, por sua vez, vendeu quase toda sua carteira (5), mantendo apenas uma empresa conforme relatório da SEC de março de 2025. É importante destacar as diferenças entre o estilo de investimento de Buffett, marcado pela consistência, e a abordagem mais oportunista, visionária e corajosa de Burry. Desde a pandemia, Burry já previu o fim dos mercados em diversas ocasiões—três ou quatro vezes, pelo menos.

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Fonte: ver nota complementar
 Apesar das abordagens distintas, desta vez há uma rara convergência: ambos optaram pela cautela.

Se conselho fosse bom…

Diante dos fatos expostos, é possível perceber que o cenário demanda atenção e prudência. Manter liquidez e agir com cautela, especialmente em períodos de incerteza, pode ser fundamental para evitar exposições desnecessárias aos riscos ocultos no ambiente atual.

Em suma, permanecem dúvidas e incertezas que talvez só sejam esclarecidas com o tempo. No momento, acredito que, "fazer caixa e tomar caldo de galinha — especialmente se você está nadando pelado no rio — não fará mal algum".