Parece que, finalmente, ao contrário do que disse em meu artigo “O Princípio de Peter” (1), a saída da corrida dos ratos respeitará as leis da física. Especificamente, o efeito da gravidade na descida ladeira abaixo. Uma rápida reflexão explica o paralelo – considere que a sua vida será longa, entre 90 e 100 anos. Então, aos 45-50 anos, você iniciará a descida desta ladeira. Controlar a velocidade da descida é o problema.
Somos educados para subir a ladeira desde que nascemos. Escolher uma profissão, ter sucesso na carreira e na vida pessoal, aproveitar a vida e acumular patrimônio. Entretanto, são poucas as placas de aviso à medida que nos aproximamos do cume da montanha, de que o dia de iniciar a descida da ladeira está próximo.
A VIDA COMEÇA AOS 46
E não interprete da forma errada. Descer a ladeira não significa o início do fim. Em dezembro de 2010 (2), a revista The Economist publicou o artigo “The U-Bend of Life”, no qual explorava uma ideia que a pandemia tornou realidade: a vida (re)começa aos 46 anos.
São passados 15 anos desde a publicação do artigo, mas o conceito central de que até os 45 anos estamos fadados a seguir a cartilha da carreira e vida pessoal de sucesso, onde os sonhos materiais são infinitos e a pressão social é imensa, parece ser uma Lei, que evoluiu com a pandemia e quebrou o caminho natural de se manter no cume até os 60-65 anos para só então, iniciar uma descida de aposentadoria e coleção de pijamas diurnos.
Eu me incluo nesse time e vejo isso na maioria dos meus clientes: o desejo de fazer a segunda metade da vida valer muito a pena. Com mais experiência, patrimônio acumulado, ou pelo menos a base da pirâmide social assentada com imóvel próprio, filhos, carreira e obrigações da lista da vida já cumpridas, é chegada a hora de viver por você. A medicina evoluiu muito nestes 25 anos, o que tornou real a probabilidade dos 45 ser a metade da vida da maioria das pessoas.
MAS A VERDADE É QUE NÃO ESTAMOS PREPARADOS
Com mais saúde e vitalidade. Mais experiências, menos obrigações. Só que não. A realidade é a velha conhecida que aponta para a verdade de que não estamos preparados.
As únicas fontes de renda passiva (vitalícia de verdade) disponíveis são o INSS para quem é CLT ou profissional liberal, os fundos de pensão fechados para funcionários públicos e os fundos de previdência corporativos para quem conseguiu a façanha de trabalhar mais de 15 anos na mesma empresa que tinha este benefício. Nem mesmo empresários salvam-se deste grupo porque em muitos casos a perpetuidade da empresa depende de um sucessor que não existe. Entenda por fonte de renda passiva, o salário entrar na sua corrente mensalmente sem você fazer a menor ideia de como foi gerado.
Nem mesmo as previdências privadas cumprem o seu papel original sendo utilizadas atualmente como veículos de eficiência tributária e sucessão, mas não mais como fontes geradoras de renda passiva (vitalícia).
Logo, para os que vão precisar se preocupar em como fazer esta receita entrar na conta até morrer, reforço a palavra vitalício porque estas 9 letras são o divisor entre você se manter fora da corrida dos ratos até o final ou terminar com um padrão de vida abaixo do desejado ou pior, precisando de auxílio financeiro.
UMA REFLEXÃO SOBRE A DESACUMULAÇÃO
As contas básicas de retirada de patrimônio a uma taxa menor do que 4% a 6%, em moeda corrente, desconsiderando o poder da inflação e o valor do dinheiro no tempo, podem fazer com que, no meio da descida, o freio de mão do seu carrinho falhe e aí, meu amigo, minha amiga, vai doer.
Porque desacumular é um evento para o qual, nem o nosso sistema financeiro está preparado. A maioria dos assessores, corretoras e multi-family offices ou casas de wealth managements sabem administrar o patrimônio de seus clientes. Ou seja, tem a missão de fazê-lo crescer. Mas lidar com clientes que precisam de renda mensal e que o patrimônio dure até o último dia, é um desafio inegável. Até porque, já pensou que este profissional ou esta empresa precisa seguir existindo pelos próximos 20, 30, 40 anos ou mais, considerando a realidade das pessoas que desejam sair da corrida dos ratos perto do topo da montanha, entre 45-55 anos?
Quem chegou nesse ponto da estrada já percebeu que a maioria destes profissionais não faz a menor ideia do que estamos falando porque estão longe do cume. E não há nada de errado com este perfil, pois não me parece racional esperar que pessoas mais jovens entendam as suas preocupações e saibam como resolver um problema que nunca experimentaram. Obviamente, respostas surgirão para que não se perca o cliente. Ou somente porque acreditam que a solução é simples na desacumulação.
O recado é claro e para quem tem o desejo de sair da corrida dos ratos, a fase dos 45-55 será decisiva. Dependendo da situação patrimonial, um “esquenta” iniciando aos 40 pode contribuir. Porém, em todos os casos, ter um patrimônio expressivo será requerido e isso cresce o olho da ganância e os conflitos de interesse das pessoas que deveriam ajudar a sua descida ser suave e que, ao invés disso, podem te empurrar ladeira abaixo.
Fica o convite para tornar a segunda metade da sua vida mais leve, divertida e prazerosa. Afinal, você trabalhou muito e talvez tenha sacrificado a sua saúde, família e outros bens não materiais irrecuperáveis para chegar até aqui. Com mais experiência, precisamos somente de um pouco de dedicação para assegurar uma renda passiva. Vitalícia.
Que a vida seja uma corrida maluca ladeira abaixo estilo Red Bull (3). Descer planando com asas ou rolando e se quebrando é uma escolha que você pode fazer hoje.